domingo, 28 de agosto de 2011

O Trem das Nove e Quarenta e Cinco

Nove e quarenta e cinco da noite, acabara de pegar o trem e já estava próximo à estação Lapa. Meia hora antes saíra do trabalho e, como já era de costume, entrara no metrô exatamente às nove e dezessete.

Chegando à Lapa uma interessante figura entrou na condução e sentou-se próximo à janela. Era um homem de mais ou menos quarenta e cinco anos, aspecto sorridente, barba por fazer e exagero na proteção contra o frio.

Observei-o por alguns segundos, pois como dito anteriormente, o mesmo estava próximo à janela. Normalmente, dentro de trens nada é interessante, exceto as luzes da cidade ao cair da noite. Meus olhos acabaram por cruzar com a aura do passageiro.

De repente, o telefone celular tocou e ele atendeu com um feliz “Alô!”. A conversa prosseguiu com risos e cumprimentos. Parecia em êxtase ao falar com o interlocutor. Por referir-se à pessoa usando artigos femininos, deduzi ser uma mulher.

A conversa teve continuidade e o mesmo sorriu ao fazer votos positivos. Mencionou alugar um quarto de hotel para ambos passarem o feriado, tendo um dia repleto de brincadeiras e felicidades.

Usou frases de sofisticado bom humor, somadas a uma visão fantasiosa do que parecia ser a promessa de um dia perfeito. Falou de passarem cada segundo juntos. Perguntou sobre a mãe dela e sorrindo disse para “sua futura sogra esperá-la, pois logo a veria subindo ao altar com um vestido branco, maquiagem perfeita e sonhos realizados".

Estávamos chegando à Imperatriz Leopoldina. O homem jurou amor eterno e total dedicação à mulher que ele dizia ser “fruto de seu mais belo sonho”. Segundos depois ele se despediu e encerrou a chamada.

Logo em seguida, começou a chorar estranhamente, como se uma angústia horrível o sufocasse. Aparentou um estranho remorso enquanto mexia no celular em uma das mãos.

De repente, com lágrimas nos olhos, seu olhar cruzou o meu. Ele me observou por instantes. A expressão triste se foi e seu semblante era de uma pessoa suplicando misericórdia como um covarde pedindo mais alguns segundos de vida ao seu algoz.

Chegamos à Imperatriz Leopoldina. Ele se levantou e saiu. Seus olhos agora fitavam o sombrio e misterioso caminho.

Mais duas estações e estaria em casa. Quem era aquele homem? O que o perturbava? Estas perguntas jamais serão respondidas por um breve olhar.

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